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BASQUETE - Editorial

ALEXANDRE MOREIRA, PROFESSOR DOUTOR

13/12/2006 20:21 h

         

"A eficácia e a heterocronia das respostas de adaptação de basquetebolistas submetidos a diferentes modelos de estruturação da carga de treinamento"

Repeti o título porque ele representa o trabalho de pelo menos dez anos de atuação tanto do autor desta pioneira tese de doutorado no basquetebol brasileiro, quanto o nosso trabalho como treinador de basquetebol.

Conheci o Professor Doutor Alexandre Moreira ainda treinador de Guarulhos.

Fomos apresentados por uma amiga comum, a Paulette, que fazia aulas na sua Academia de Preparação Física, a MV - Centro de Preparação Física Individualizada.

A MV-CPFI é hoje o melhor lugar para se ter uma aula de personal training de São Paulo.

Pois bem, o nosso Professor Doutor leu no Jornal da Tarde uma entrevista que concedi falando sobre o preparo físico em equipes de basquetebol.

Dizia eu ao JT há dez anos, que infelizmente no Brasil o preparo físico das equipes, por força do nosso calendário esportivo que não nos dava descanso, impedia que realizássemos um trabalho físico adequado e que este se resumiria a um ou dois meses de pré-temporada e a períodos de manutenções eventuais, de acordo com as folgas do referido calendário.

O que não falei ao reporter do JT foi que já sabia por experiência própria que o basquetebol nada mais é do que "atletismo jogado" e que a preparação física seria dali para frente um dos pilares da formação esportiva de "basquetebolistas".

Sempre me questionei (desde quando atleta) o motivo de termos que correr, por exemplo, vinte, trinta, quarenta minutos seguidos todos os dias por um mês, para depois saltarmos barrinhas de oitenta, noventa centímetros, um metro, um e vinte por mais um mês, para logo estarmos dando tiros de sessenta, oitenta, cem até mesmo cento e vinte metros por mais quinze dias, para só então começarmos com o trabalho de peso e então entrarmos em campo para treinos e jogos e nunca mais treinarmos a parte física.

Não entendia porque correr quarenta minutos seguidos, dar tiros de oitenta metros, saltarmos barreiras de um metro se não fazíamos isso no jogo.

Alguns me diziam que era para formar a "base" atlética e eu os questionava que tudo isso era feito há vários meses atrás e que só o treinamento de quadra não manteria a tal base.

Tais "treineiros" me garantiam que a "base" seria mantida com o treinamento de quadra que eles se propunham a realizar, coisa que raramente ocorreu, pois o campeonato não permitia a estas pessoas que elas pensassem em outra coisa senão em treinar taticamente suas equipes.

Muitas vezes, como jogador, consciente de que só a quadra não me traria o nível técnico necessário para as competições a serem jogadas, treinei escondido, antes que o treinador principal acordasse ou percebesse o estratagema.

Combinava com o preparador físico e íamos os dois ou os três (mais o Oscar) fazer nosso treino de manutenção física. Voltávamos, trocávamos de uniforme e estávamos prontos para começar o dia de treinos.

Outras vezes, pedia ao preparador físico um programa específico que eu necessitasse para aquela determinada ocasião e ia sozinho ao Ibirapuera ou à musculação nos períodos "intertreinos".

Também vi luminares da educação física brasileira serem tratados por treinadores e alguns jogadores como "elementos de figuração" de uma equipe, equiparando-os a roupeiros ou massagistas.

Alguns, muito poucos, se indignaram e abandonaram o basquete. Outros se tornaram muletas emocionais dos jogadores, roupeiros, massagistas, fazedores de estatísticas e, o que é pior (e denigre a classe), "aquecedores de time", além é claro de central de fofocas e leva e trás de informação para manter seu status no time.

Faço aqui uma perguntinha de um real: Vale a pena estudar tanto para apenas ficar fazendo fofoca e aquecendo o time, enquanto alguém mais "poderoso" não o deixa trabalhar e ainda o culpa dos fracassos da equipe?

Voltando ao Professor Doutor, este leu a tal entrevista e pediu a Paulette que entrasse em contato comigo, pois queria discutir preparação física de equipes esportivas.

Aceito o convite, marcamos uma reunião na MV para onde fui com todas estas idéias e dúvidas fervilhando em minha mente.

Sinceramente não esperava muito daquela conversa, pois não sabia ainda do conhecimento sobre a matéria que aquele ainda imberbe professor já possuía.

Na minha cabeça havia apenas o modelo europeu de treinamento esportivo. Fui treinado por Franco Savi, titular da matéria na Universidade de Nápoles, e a temporada que estive em Caserta mudou totalmente minha visão sobre a preparação física.

Lá chegando o Professor Doutor me trancou em sua sala, abriu um power point no seu laptop e falou por aproximadamente uma hora sobre o que ele acreditava ser a preparação física apropriada para equipes esportivas de competição de alto rendimento.

Igualzinho ao Savi.

Até os termos técnicos utilizados naquela "aula" particular foram semelhantes.

Não tive dúvidas. Terminada a exposição lhe perguntei: "Você aceitaria ser preparador físico do meu time?"

O PD não teve resposta. Travou. Não soube me dizer. Vi que não era esse o seu propósito inicial.

Insisti. Soube naquele momento que diante de mim estava uma pessoa cujo interesse primeiro era difundir conhecimento e não auferir proventos ou poder com ele.

Estava ali uma pessoa que queria testar suas idéias e aprender com o caminho para executá-las.

Sei que não tive que utilizar muitos argumentos para convencê-lo. Ele já estava pronto e a proposta era muito boa:

Total autonomia na determinação da carga de treinamento da equipe.

Cabe aqui outra perguntinha de um real: Quem tem isso hoje na preparação física de qualquer equipe?

O Professor Doutor sempre teve. Aliás, o processo de treinamento de nossas equipes acontecia de maneira inversa ao tradicional.

Eu lhe telefonava e perguntava: "Quando posso treinar meu sistema de pressão quadra toda?"

Ele me respondia: "Nesta Quinta e na próxima Segunda, pois estamos trabalhando alguns aspectos de força e velocidade."

Eu retrucava: "Mas, Sexta e Domingo nós temos jogo!"

E Ele: “Pode treinar sem problemas. Eu ainda quero treinar no sábado pela manhã."

E eu: "OK!"

Todos sabemos que o diálogo tradicional entre o técnico e o preparador físico provavelmente é este:

PF: "Tenho que treinar força e velocidade nesta semana!"

Tec: "Hummm! Sei não. Temos jogos Sexta e Domingo... Pode cansar o time".

PF: "Mas podemos treinar sem problemas. Até no Sábado..."

Tec: "Sábado nem pensar... Só uns chutinhos."

PF: "Tudo bem, então..."

Tec: "Vamos dar um bom aquecimento nos dois jogos e quem sabe, vc poderá pegar o time na Terça que vem"

PF: "Terça?!! Mas por que não na Segunda também?"

Tec: "Nem pensar. Segunda é folga da companhia!!??"

E se o resultado dos jogos fossem negativos, além de treinos técnicos na Segunda e Terça a culpa recairia novamente no PF, que não preparou a equipe direito.

Eu nunca me arrependi de dar o controle da carga de treinamento ao Professor Doutor.

Sei que ele é a pessoa mais indicada a controlar este importante aspecto do treinamento porque os resultados de curto prazo jamais o influenciaram no seu julgamento.

Nossas conversas telefônicas e durante as viagens aos jogos foram um aprendizado constante e estimulante para mim. Muitas vezes desliguei o telefone e fui direto à Internet para pesquisar o tema da discussão.

Por outras vezes tive intuições muito importantes de como afrontar os obstáculos técnicos dos jogos.

Como tinha formação acadêmica alicerçada no contínuo saber, o Professor Doutor jamais se deu por "sabido". Sempre esteve ligado a instituições de ensino seja na FMU, na Gama Filho para finalmente fazer seu complemento educacional na Unicamp onde obteve o mestrado e agora o doutorado.

Todos os seus trabalhos científicos foram baseados em nossas equipes e por muitas vezes realizamos coletas de dados durante as partidas.

Temos e me incluo porque modestamente dei a minha colaboração, diversos trabalhos publicados em vários congressos e revistas de Educação Física.

Há mais de dois anos o Professor Doutor deixa todos os seus afazeres e passa um dia da semana na Unicamp para completar as suas teses de mestrado e de doutorado.

Não é fácil, pois além dos cursos obrigatórios o mestrando ou doutorando deve ministrar aulas nos cursos técnicos e de graduação da Faculdade de Educação Física.

Portanto, no dia 28 de novembro de 2006, o então Mestre em Educação Física Alexandre Moreira defendeu a sua tese de doutorado (cujo título não irei repetir) diante da seguinte banca examinadora:

Orientador: Professor Doutor Paulo Roberto de Oliveira, chefe do Departamento de Ciência do Desporto da Unicamp, consultor técnico da CBV - Confederação Brasileira de Volleyball, exerceu no passado o cargo de Secretário de Esporte de Londrina e foi preparador físico de renomados atletas olímpicos na área do atletismo.

Professor Doutor Valdir Barbanti, pessoa de renome no esporte nacional, preparador físico da seleção brasileira de basquete campeã pan-americana em Indianápolis 1987, uma vida dedicada à Educação Física principalmente à USP, onde exerceu/exerce vários cargos inclusive o de diretor.

Professor Doutor Antonio Carlos Gomes, diretor técnico de futebol do Clube Atlético Paranaense, com mestrado e doutorado realizado na antiga URSS, onde viveu por onze anos, sob a tutela dos Eméritos Professores Doutores Matveev e Verkhoshansky, responsáveis pelo programa olímpico soviético, nos quais teve a oportunidade de assistir a dois ciclos de preparação olímpica daquela potência esportiva.

Professor Doutor Roberto Rodrigues Paes, que foi diretor da Faculdade de Educação Física da Unicamp, ligado ao basquetebol desde adolescente, tendo chegado a várias seleções brasileiras. Foi exemplo para os jogadores da minha geração, além de ter sido vencedor em quase todos os confrontos que tivemos quando disputávamos os jogos das categorias menores entre Campinas e Jundiaí.

Professor Doutor Sergio Augusto Cunha, do Departamento de Biomecânica da Unicamp, uma das pessoas que mais entendem de biomecânica e estatísticas na sua área de atuação.

Esta mesa argüiu por mais de quatro horas o então Doutorando Alexandre Moreira, não deixando lacunas que pudessem diminuir a grandeza de sua tese.

O Doutorando não teve trégua e respondeu a todas as perguntas com o brilhantismo dos que desbravam novas teorias sobre o esporte.

Foi aprovado com a admiração de todos os elementos da banca examinadora e os presentes principalmente pela certeza e clareza de suas respostas.

Eu que ali me encontrava, torci muito e fiquei emocionado com a aprovação da tese não só de nosso Professor Doutor, amigo e companheiro de batalha para sempre, mas pela aprovação de nossa maneira de treinar basquetebol, que passou não pelo crivo dos resultados das quadras, pois estes no Brasil têm variantes que passam muito longe das mesmas, mas pela sombra da altura moral dos elementos da banca examinadora e da Unicamp.

Na ocasião, pude manifestar todo o meu orgulho em ter acompanhado o Professor Doutor Alexandre Moreira desde o início de sua carreira no basquetebol, como também desejar que tal trabalho pudesse ser realizado por mais preparadores físicos brasileiros, que como citei acima, colocam-se na posição de meros "esquentadores" de equipe, mas, tenho certeza, têm no fundo de seus corações à vontade de exercer seu mister com plenitude que o conhecimento lhes confere em sua área.

Gostaria muito que nossos treinadores de basquetebol pudessem passar por este crivo técnico que a banca examinadora e a Unicamp submeteram não só a tese do Professor Doutor Alexandre Moreira, mas também o trabalho por nós desenvolvido durante estes anos como treinadores de basquetebol.

Portanto, da próxima vez que me perguntarem o que ganhei ou quem formei, responderei que o nosso modelo de treinamento, ao contrário dos modelos de todos os outros, foi duramente examinado numa universidade de renome e credibilidade mundial e brilhantemente aprovado por pessoas que realmente entendem de treinamento esportivo de alto rendimento.

Vencer no basquete do Brasil não significa ser necessariamente o melhor e sim o mais adaptado ao sistema servil que rege atualmente o nosso esporte.

A prova disso é que os grandes vencedores dos nossos títulos internacionais de nível, nem sempre foram os grandes vencedores dentro do basquete brasileiro.

Quando pudermos aplicar o nosso modelo de treinamento junto aos melhores jogadores de basquete do Brasil numa competição de nível internacional como as que hoje naufragamos ou simplesmente não classificamos, tenham a certeza que os resultados serão muito diferentes dos obtidos pelos grandes vencedores do basquete "no" Brasil.

Marcel de Souza
marcel@databasket.com
Administração

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