Vivo estivesse, José Cláudio estaria neste Sábado comemorando o seu 67º aniversário.
Infelizmente não o temos mais entre nós e sua presença é muito sentida nos dias de hoje.
Sua vida esteve sempre ligada ao basquete, onde começou como diretor do Corinthians nos tempos de Ary Fonseca e do presidente Wadih Helou.
Aliás, JC sempre foi corintiano de carteirinha e coração. O Corinthians, clube do qual foi conselheiro vitalício, foi sua principal paixão.
Lembro-me do casamento de sua única sobrinha quando o noivo dedicou a ela a música de suas vidas.
Depois de um comovido discurso, onde relembrou os momentos mais felizes da relação, a banda atacou: ?Salve o Corinthians! O Campeão dos Campeões....? E, para o meu espanto todos saíram dançando, inclusive o corintiano roxo JC, que na época já não se encontrava em perfeitas condições de saúde.
JC teve no Corinthians os seus primeiros passos como diretor. A contratação do grande Ubiratan, o jogador mais importante da história do basquete brasileiro, é um exemplo da sua perspicácia e senso de oportunidade que sempre nortearam a sua atuação nas coxias do basquete.
É claro que JC também penou muito para dominar tão bem o ambiente como fazia.
Diretor de uma equipe que contava com Amaury, Wlamir, Edvar, Ubiratan a rivalidade com o Sírio era muito grande e as partidas decisivas eram cheias de nervosismo e disputa. JC às vezes extrapolava.
Conta-se que, numa decisão discutível da arbitragem a qual favoreceu a conquista de um campeonato para o Sírio dentro do Parque São Jorge, JC engoliu a súmula do jogo e, ato contínuo, mandou uma trivela de esquerda nos ?países baixos? do seu colega diretor da equipe visitante.
O que sei é que, após a conquista do título mundial de 79 do Sírio, JC num discurso emocionado desculpou-se com o mesmo diretor pela atitude intempestiva cometida há mais de 10 anos.
É claro que esta intempestividade, anos mais tarde controlada, levou o Brasil e as equipes brasileiras a grandes conquistas internacionais.
A era JC caracterizou-se por vitórias em todas as categorias do basquete internacional.
A nossa hegemonia continental era indiscutível. Houve anos em vencemos os campeonatos continentais de todas as categorias.
Eu, por exemplo, perdi para a Argentina apenas três vezes: 75 em Medellin, 79 em Bahia Blanca e em 80 no torneio Pré-olímpico.
Hoje...
A influência internacional de JC ajudou a trazer muitas vitórias ao Brasil.
É dele a manobra para escalar o árbitro grego Rigas e o checo Kotleba na final do Pan de 87, a última grande conquista do basquete masculino do Brasil.
Só na era JC seria possível escalar dois juizes europeus numa final de Pan-americano contra a equipe norte-americana, dentro dos Estados Unidos.
Hoje...
O diabetes, ou a falta de cuidado com a doença, dizimou a saúde de JC. Amante da boa mesa, ele nunca dispensava um bom restaurante e uma boa sobremesa e é claro uma boa conversa sobre basquete.
Confesso que em seus últimos anos discuti muito com ele, mas mesmo assim nossa amizade sempre persistiu.
Em Atlanta, durante as Olimpíadas de 96, eu estava comentando os jogos quando um alto dirigente da FIBA veio até a minha postação e me disse que JC precisava falar comigo.
O dirigente estava preocupado, pois JC não estava passando bem e me deu o endereço do hotel em que ele estava hospedado.
Recordo-me que tal hotel ficava nas proximidade do aeroporto, a duas horas do ginásio de jogo e, chegando lá, deparei-me com JC com sérios problemas, mas mesmo assim falante e bem humorado.
Não estava sozinho. Quem o auxiliava era nada menos do que o porto-riquenho Tutu Marchand, este também um dos grandes dirigentes do basquete mundial.
Passamos uma tarde incrível.
Deitado em sua cama, com Marchand a seus pés e eu a assistir aquela conversa de alto nível dirigencial onde JC tratava assuntos de relevância para o basquete americano.
Obviamente me intrometi um pouco na conversa.
Eu, na época, tinha acabado de ganhar o livro de Tex Winter: ?The Triple Post Offense?, que é a base do Sistema de Triângulos e também havia lido o livro ?As Cestas Sagradas? de Phil Jackson onde ele contava de sua passagem como treinador em Porto Rico.
Perguntei a Marchand ?O Tutu!! Quem é melhor Phil Jackson ou Flor Melendez??
?É claro que é o Flor!!? respondeu-me Marchand.
?Mas Tutu, o cara é tri-campeão da NBA?!!?
O termo que ele utilizou para definir PJ eu não ouso declarar, mas ele nos garantiu que o Flor Melendez era muito melhor que Jackson...
Enfim, perdemos JC. Ele se foi e sem sua presença parece que o nosso basquete nunca mais se achou.
Sem dúvida alguma JC foi o último dirigente a compreender a grandeza do basquete brasileiro.
JC no princípio foi o promotor, depois o motor e para sempre será a idéia do que é o nosso basquete.
Não deixou herdeiros.