Disse que tenho dificuldade em admitir a minha saudade pela perda de José Cláudio porque no final de sua vida nossos caminhos novamente se separaram e não tivemos a oportunidade de voltarmos a conversar.
Isso, como disse, era uma constante em nossa grande amizade e ainda hoje sinto o fato de não ter me despedido dele.
JC era único e tinha dificuldade em aceitar opiniões contrárias. Na verdade, as pessoas na sua posição no basquete mundial são poucas e sempre tiveram que tomar decisões que desagradaram a alguns.
Muitas vezes minhas opiniões não estavam de acordo com o momento político da época e JC, o artífice político do basquete brasileiro, tinha uma visão que alcançava um panorama diferente e superior ao meu. Por isso discutimos com frequência.
Nossas pendengas, no entanto, eram recheadas de nuances técnicas as quais nunca mais pude discutir por absoluta falta de pessoas com uma visão tão globalizada quanto a de JC.
Hoje vejo que pessoas em certas posições não podem agradar a todos, muito menos fazer acordos com todos, pois atitudes como estas levam ao desmoronamento do sistema.
JC entendia a dinâmica do jogo político como ninguém. A sua formação política era irreparável. Lia de tudo. Todos os assuntos.
Tenho curiosidade em saber que destino teve a sua biblioteca, da qual ?surrupiei? vários livros técnicos e políticos.
Os inimigos só surgem quando pessoas de mesmo poder se enfrentam.
Não creio que JC tivesse inimigos. Ele teve sim gente que, não usufruindo de suas benesses ou, tendo perdido tais privilégios se revoltou e passou a criticá-lo ou ataca-lo sempre (é claro) nas catacumbas do poder, na obscuridade do anonimato e das fofocas.
Confesso que fiquei muito chateado e manifestei tal descontentamento a JC, quando ele trabalhou politicamente para colocar o técnico Ênio Vecchi, então seu protegido, como treinador da seleção brasileira.
Não pelo Ênio, que sempre defendeu e tem idéias claríssimas sobre o nosso basquete, mas pelo fato de que, na época, era um treinador que vinha dos juvenis e assumiria sem experiência anterior a nossa seleção.
Para mim era um momento de transição, muito delicado para o basquete brasileiro e a carta Ênio Vecchi era muito arriscada para o jogo.
Depois entendi o relacionamento filial que JC nutria pelo Ênio e compreendi que foi uma decisão muito mais emocional do que técnica a qual infelizmente não deu frutos, não pela qualidade técnica de Ênio Vecchi que é indiscutível, mas pelo momento que passava a nossa seleção a qual necessitava de outro perfil de treinador para seu comando.
Aliás, nunca entendi bem os critérios que orientam a escolha do treinador da seleção nacional.
Alguns venceram muito pouco aqui e foram vitoriosos com a seleção. Já outros foram (são) imbatíveis no Brasil, mas não emplacaram internacionalmente.
O jogo político não deve ser o fator principal para a escolha do treinador de qualquer seleção.
JC, em seus melhores anos, sabia identificar e trabalhar pela escolha do melhor técnico para o Brasil e não necessariamente o melhor no Brasil.
Seu trabalho na seleção era irreparável. Costumava brincar, não sem razão, que com um dirigente como ele não era necessário o trabalho do técnico nos jogos, pois ele poderia muito bem ser o técnico.
Não por acaso ele estava no banco nas nossas maiores conquistas dos últimos anos gloriosos do basquete brasileiro e algumas intervenções suas dimensionaram o trabalho de quase todos os nossos treinadores.
Lembro-me de um treinamento para as Olimpíadas onde o treinador estava enfrentando sérias dificuldades em realizar os últimos três cortes.
Na verdade, era apenas o último corte porque os outros dois já eram ?gatos no saco?.
Politicamente os veteranos da seleção trabalhavam por um jogador amigo, enquanto que tecnicamente um jovem de futuro arrebentava em todos os treinos dificultando a escolha de nosso treinador.
Na data limite venceu o jogo político dos veteranos e nosso técnico teria que comunicar e explicar ao grupo o motivo de tal escolha o que seguramente iria gerar certo desconforto com os jogadores envolvidos e com o próprio grupo.
Para esta árdua tarefa nosso treinador pediu a JC, que quase sempre era o chefe da delegação, para que comunicasse os cortes aos jogadores.
Naqueles tempos os cortes ainda eram realizados na abominável forma de reunir todos do grupo: técnicos, dirigentes, médico, massagista, roupeiro, jogadores, etc e comunicar aos jogadores o seu fatal destino.
JC além desta dura missão ainda tinha que dar avisos gerais como a hora do embarque, discutir a então ajuda de custo dos jogadores (tarefa nada fácil porque sempre tinha alguns veteranos que se achavam no direito de receber mais ajuda de custo do que os outros só pelo fato de se considerarem mais importantes do que o próprio jogo) e, como era competição do COB, informar onde retirar o material de viagem entre outras coisas.
O nosso maior dirigente começou então pela parte mais fácil: discutiu ajuda de custos, informou horários e locais, tirou dúvidas e por fim, na lata, disse: ?O treinador me pediu para anunciar os cortados?.
Ato continuo, retirou do bolso do paletó uma pequena lista (com a letra do treinador) e tascou: ?Estão dispensados os seguintes jogadores: Fulano, Beltrano e Sicrano. Boa noite e obrigado?.
Todo mundo ficou com aquela cara de tacho. Nosso treinador não sabia o que falar. Os jogadores ficaram num misto de alívio (alguns), surpresa e revolta (muitos) e os pobrezinhos que foram cortados passaram momentos de constrangimento perante a todos.
Mas assim era JC, que não estava totalmente errado, pois não era sua obrigação cortar jogadores e tinha muito mais a resolver pelo basquete do que ficar anunciando cortes.
Depois deste fato, na minha época, ou os jogadores eram chamados no quarto dos treinadores para serem comunicados do corte ou se convocava apenas doze jogadores.
Continua...