Se existe alguma coisa que não gostaria de admitir é a saudade que sinto pela perda de José Cláudio dos Reis, indiscutivelmente o maior dirigente que tivemos.
O basquete brasileiro era muito diferente na época em que JC atuava ?nos bastidores? do nosso esporte.
Tínhamos, por exemplo, penetração política internacional e nossa versão, se não acatada, era sempre ouvida.
Sua presença política nas Américas era determinante para a nossa posição e mundialmente o Brasil amealhou grandes conquistas.
Antes de tudo, JC era apaixonado pelo nosso esporte, aliás, ficou difícil conversar sobre basquete depois que ele nos deixou.
Hoje nossa visão é mais centrada nos resultados nacionais, ponto de vista totalmente refutado por JC, que sempre preferiu o que era melhor para o Brasil a quem era melhor no Brasil.
Conversar com ele sobre qualquer assunto gerava discussões intermináveis e muitas vezes brigamos e tomamos rumos diferentes para depois concordarmos em algum outro ponto de vista em outro momento.
Lembro-me de jantares intermináveis, charutos cubanos, gravatas italianas e viagens que pareciam curtíssimas dada à facilidade com que JC discorria sobre a história do basquete mundial e brasileiro, bem como seu conhecimento geral.
Meu primeiro contato com ele foi, aos 11 anos, nos treinos de uma seleção pré-mini que viajaria para Porto Rico.
Os treinamentos se realizavam na quadra externa do Clube Pinheiros e eu fui o último jogador a ser cortado daquela seleção.
Num momento de muita emoção chorei compulsivamente e minha mãe, que sempre me acompanhava, adentrou a quadra e veio em nossa direção.
JC (depois me confessou) achou que aquela jovem senhora iria questiona-lo sobre a dispensa de seu filho e se preparou para o ?esculacho? que iria ter que agüentar.
No entanto a Loira passou direto por ele, veio até a mim e me deu uma das maiores descomposturas que levei como jogador.
?Você mereceu o corte. Vá lá, agradeça e cumprimente a todos?.
Lá fui eu, em prantos, agradecer ao treinador ? João Francisco Brás ? e a todos pelo merecido corte.
Na verdade eu era bem ruinzinho.
De qualquer maneira, o fato em si surpreendeu a JC que no ano seguinte armou uma outra seleção, esta com destino à Europa e determinou que apenas 12 jogadores seriam convocados.
É claro que eu era um dos 12, o que gerou os protestos regulamentares de pais de vários ex-futuros talentos do basquete, mas JC, então um jovem dirigente, manteve a decisão e eu consegui ir à minha primeira seleção.
Joguei muito pouco, o técnico da época ? Orlando Valentim ? questionava JC a todo o momento sobre o motivo da minha convocação.
JC nem se comovia com as reclamações e seguia em frente como se já soubesse o rumo que os fatos iriam tomar.
Fui elogiado por todos pela minha educação e meu bom comportamento!
Daqueles 12 apenas o Saiani disputou uma Olimpíada. Moscou em 1980. Os demais ficaram pelo caminho.
JC sempre foi assim. Parecia entender com muito mais sabedoria o universo em que vivíamos. Tinha um tino de dirigente que o fazia estar sempre um ou dois passos à frente de seus pares.
Alguns anos depois, já na seleção adulta, JC jantava com a CT da seleção brasileira da época e o assunto era o de sempre: ?quem tinha lançado quem para o basquete?.
Um técnico dizia: ?Eu ensinei ao Carioquinha tudo o que o ele sabe?.
Outro retrucava: ?O Marquinhos começou na seleção comigo?.
O assistente técnico Orlando Valentim arriscou: ?Eu lancei o Marcel?.
Minha nossa! JC ficou possesso: ?Como assim? Você nem queria leva-lo e muito menos o colocou em quadra??
O bom Valentim deu um sorriso amarelo e a conversa continuou madrugada adentro.
JC era de uma sinceridade impressionante. Se o objetivo era a grandeza do nosso basquete JC costurava acordos mirabolantes para depois rompe-los imediatamente caso tais manobras políticas não levassem à melhoria do nosso basquete.
Nos meus primeiros anos de seleção ficava horas a escuta-lo e grande parte das minhas crenças no basquete foram forjadas pelo seu exemplo.
O basquete em primeiro lugar. O basquete brasileiro sobre todas as coisas. Sempre fazer o melhor para o basquete.
Certa vez, na então Leningrado, havíamos levado de 20 da então URSS e estávamos no hall do hotel discutindo a ?situação do basquete nacional que se refletia na performance técnica da nossa seleção?.
Eu era minhoca e ouvia com atenção às conclusões de vários cobras do nosso basquete:
?Vejam só a situação não só da URSS, bem como a da Iugoslávia e a de outros países do bloco socialista?.
Justificava o cacete de 20, um dos nossos líderes.
?Todos estão no exército vermelho onde são remunerados e têm tempo para treinamento sem necessidade de trabalho para o seu sustento. Se tivéssemos as mesmas condições estaríamos jogando de igual para igual contra eles?.
Uma risada sarcástica e irônica cortou a cena.
JC começou a perguntar a cada um dos jogadores: ?Marcel, o que você faz além de jogar basquete??
Estou no segundo colegial, respondi.
?Sei. E você, Fulano??
Ah! Eu tenho posto de gasolina! Respondeu o Fulano.
?Mas, você trabalha lá? A que horas??
O cobrão, um pouco sem jeito, retrucou: ?Na verdade, quem fica lá é meu cunhado.?
?E você, Sicrano??
?Eu faço Faculdade? Disse este.
?Verdade? Quantas vezes você foi à Faculdade este ano??
?Bem, Zé. Eu tenho umas amigas que fazem os trabalhos para mim e depois, sabe como é, eu sou da seleção e coisa e tal...?
?Vamos ver quem trabalha aqui.?
JC fez as contas e todos viviam do basquete.
?Então, é só treinar como os soviéticos, porque nossos melhores jogadores só jogam basquete como eles?.
Todo mundo ficou quietinho e fomos dormir quentinhos.
Continua.