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ENTREVISTA - CLÁUDIO MORTARI

27/02/2004 16:24 h

         

O técnico Cláudio Mortari é um dos mais vencedores do cenário nacional, tendo comandado grandes equipes e jogadores importantes. Como exemplo, podemos citar o EC Sírio, de São Paulo, com quem conquistou torneios importantes, como o Campeonato Mundial Interclubes de 1.979 (Copa William Jones).

Até o momento, Mortari comandou equipes adultas em 1.651 partidas, vencendo 1.222 e perdendo 429.

Confira, um pouco mais de sua história, forma de pensar e planos para o futuro na entrevista a seguir ...


DATABASKET: Faça um breve relato de sua carreira:

CLÁUDIO MORTARI: Iniciei minha carreira de técnico dirigindo inicialmente as escolinhas do Palmeiras em 1.969. No mesmo ano assumi a equipe mini do próprio Palmeiras. Permaneci dirigindo as equipes inferiores, passando por todas as categorias, até 1.976 quando assumi a equipe principal. Nessa minha passagem pelas equipes inferiores foram conquistados 16 títulos de mini a juvenil, sempre no Palmeiras. Em 1.976 e parte de 1.977 dirigi a equipe principal me transferindo, ainda em 1.977 para o Sírio. Depois do Sírio trabalhei no Bradesco E.C. do Rio de Janeiro, onde fui supervisor, passando em seguida por Corinthians, Pirelli, Telesp, Rio Claro, Mogi das Cruzes, Mackenzie, Flamengo e Campos. Ainda trabalhei no Continental entre 1.972 e 1.976 iniciando nesse período o trabalho de basketball neste clube. Neste período de equipes principais foram conquistados 28 títulos oficiais e mais 21 em torneios dos mais variados. Fui técnico das seleções paulista e brasileira conquistando na juvenil brasileira 3 títulos sul-americanos, 1 pan-americano, 1 vice e 1 terceiro lugar em dois mundiais. Também consegui vencer 6 títulos brasileiros comandando as seleções paulista adulta e juvenil. Na seleção brasileira adulta fui o técnico da equipe na disputa dos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1.980, onde conquistamos o 5o lugar. Na passagem pelos clubes na categoria adulta ou principal fui campeão:

Sírio ? 12 títulos (1 Mundial, 3 Sul-americanos, 3 Brasileiros, 2 Campeonatos Estaduais, 1 Campeonato Paulista e 2 torneios de Preparação)

Mogi ? 7 títulos (1 Campeonato Estadual, 3 Jogos Abertos e 3 Regionais)

Palmeiras ? 2 títulos (1 brasileiro e 1 Campeonato Paulista)

Rio Claro ? 2 títulos (1 Campeonato Estadual e 1 Brasileiro)

Mackenzie ? 2 títulos (1 Campeonato Estadual e 1 Jogos Abertos)

Flamengo ? 1 títulos (Campeonato Estadual)

Pirelli ? 1 título (1 preparação)

Corinthians ? 1 título (Campeonato Estadual)

DATABASKET: Quais são as suas principais conquistas:

CLÁUDIO MORTARI: Toda conquista é importante em seu momento. Diferenciá-las é muito difícil. Entretanto, é claro, que a mais importante foi o Mundial conquistado pelo Sírio. Ser campeão pelo Corinthians e Flamengo também é algo que marca muito principalmente pela empolgação. Mogi e Rio Claro também marcaram muito pelo envolvimento de toda uma cidade.

DATABASKET: Como analisa o atual nível do basquete brasileiro?

CLÁUDIO MORTARI: O atual nível é satisfatório. A não conquista de títulos internacionais, principalmente a não classificação para os Jogos Olímpicos, abateu forte sobre todos, entorpecendo rivalidades, idéias e investimentos.

DATABASKET: Por que a nossa seleção ficou de fora, mais uma vez, dos Jogos Olímpicos?

CLÁUDIO MORTARI: A não classificação, em minha opinião, já externada muitas vezes, é que quando pressionada a seleção não soube reagir. A pressão foi fundamental. As derrotas na fase de decisão e a pouca diferença de pontos nessas derrotas são aspectos bastante relevantes na demonstração que algo faltou. Mas o Brasil não soube jogar e administrar sobre pressão.


DATABASKET: Como analisa o trabalho da atual comissão técnica da Seleção Brasileira? E a renovação?

CLÁUDIO MORTARI: É difícil analisar, pois todos da comissão técnica praticamente debutaram no Pré-Olímpico. Havia pouca experiência internacional. Todos sentiram. Quanto à renovação ela está aí e temos, sem dúvida, uma safra de muito potencial que nos levará a grandes conquistas num futuro bem próximo. Temos que continuar o trabalho aumentando o número de atletas em condições de servir, e bem, a seleção brasileira. Mas necessitamos de muitas outras coisas, como por exemplo, um intercâmbio maior entre técnicos e dirigentes trazendo e elevando o número de pessoas gabaritadas a dar sua contribuição e ajuda.

DATABASKET: E o Nacional Masculino. Qual a sua opinião sobre a competição deste ano?

CLÁUDIO MORTARI: É uma competição que começa com alguma surpresas, mas dentro de um nível técnico que pode ser melhorado e ele o será à medida que estivermos perto do fim do primeiro turno. A partir daí as coisas ficarão mais claras, visto que muitas equipes se formaram as vésperas da competição.

DATABASKET: Quais são as principais equipes do Nacional Masculino?

CLÁUDIO MORTARI: Até este momento Uberlândia, Flamengo (a tabela está favorecendo), COC e Goiás. A boa surpresa é a equipe do Paulistano.

DATABASKET: Por que você afastado do trabalho como técnico?

CLÁUDIO MORTARI: Eu não estou afastado. Eu estou, acredito que momentaneamente, sem equipe para dirigir. Por que? Não sei. Nestas fases não existe uma explicação. São várias as circunstâncias e elas não dependem só de você, mas sim de toda uma conjuntura. É a primeira vez que fico afastado por este período (7 meses) depois de ter conquistado títulos em 94, 96, 98 e 99, além de vice-campeonatos em 2.000 e 2.002.

DATABASKET: O que você está fazendo para se manter atualizado?

CLÁUDIO MORTARI: No Brasil acompanhando tudo pela televisão ou nos próprios locais de jogos. Em nível internacional tudo aquilo que a televisão me oferece, além de acompanhar todo o noticiário das mais diferentes fontes de informações.

DATABASKET: Quais são os esquemas táticos que se destacam atualmente no basquete nacional e internacional?

CLÁUDIO MORTARI: O basquete continua apresentando, salvo algumas equipes européias, um volume de jogo cada vez maior, onde as individualidades se destacam dando ao jogo conotações importantes de imprevisibilidades. Apesar da ênfase dada pelos treinadores e comentaristas sobre defesas o que a gente vê é a manutenção e evolução dos ataques dentro da imprevisibilidade já citada. Para quem gosta, esclareço que muitas partidas européias determinadas por baixos marcadores não são frutos de fortes esquemas de defesas, mas sim do extremo zelo com que atacam. Zelo este que pode ser medo (muita gente não vai gostar disto). Todas equipes que tiveram ou que tem alto poder ofensivo são as equipes mais lembradas e cultuadas através dos tempos.


DATABASKET: Por que você é considerado um técnico caro para o atual estágio do basquete nacional?

CLÁUDIO MORTARI: O que é caro? Quanto é caro? Quem sabe meus valores? A verdade é que muita gente apenas acha sem saber de nada. Quanto vale uma conquista? Quanto vale um bom trabalho? Não sei. Quem pode responder são os clubes que me tiveram sobre contrato. Em todos eles, exceção na Telesp, algum título foi conquistado. Mesmo na Telesp encontramos uma equipe que em 6 jogos havia perdido todos e ainda conseguimos colocar em disputa do Brasileiro. O fundamental é que exista uma proposta onde o clube realmente queira contar com meus serviços. A partir daí tudo fica mais fácil. Esta coisa de caro tem me prejudicado muito, com muita gente opinando e falando coisas que desconhecem totalmente. O que deveria ser importante são as minhas conquistas, minha postura profissional e meu trabalho. Aproveito esta oportunidade para divulgar que ninguém está autorizado em me representar. Quem trata de meus negócios sou eu, mais ninguém. A minha preocupação é que tem muita gente dizendo que conversou comigo, até supervisores de equipes, revelando conversas e propostas que nunca aconteceram. A mando de alguém mantém comigo um contato informal e repassam coisas que nunca foram conversadas. Por que? Não sei. Lamentavelmente isto já ocorreu algumas vezes.

DATABASKET: Como está o basquete nacional, com relação ao trabalho de base, na formação de atletas?

CLÁUDIO MORTARI: Precisamos uma revitalização urgente nas divisões inferiores. Mais competição, mais público e mais motivação. Mais importância, pois tudo depende disso.

DATABASKET: E os nossos dirigentes. Qual a sua opinião sobre eles?

CLÁUDIO MORTARI: Acho que cada um tenta fazer o seu melhor, entretanto precisamos uma profissionalização em áreas específicas como a área técnica, por exemplo, sem dúvida a mais importante. É fundamental desvincular a área técnica da administrativa e política.

DATABASKET: E o êxodo de atletas brasileiros para o exterior. Isso é benéfico para nós?

CLÁUDIO MORTARI: Será de extrema valia. Hoje um atleta nacional tem pouca oportunidade de intercâmbio com outros países. O que era normal para Sírio, Franca, Corinthians, entre outros, excursionar disputando vários torneios, hoje é quase impossível e não temos nenhum clube realizando este tipo de jogos internacionais. Nossas equipes apenas jogam competições sul-americanas que somam muito pouco para nossos atletas e técnicos. As equipes citadas realizavam anualmente um número muito grande de jogos por todo o mundo dando ao atleta experiência e conhecimento.

DATABASKET: Você viveu alguma experiência como atleta? Faça um breve relato!

CLÁUDIO MORTARI: Fui atleta do Palmeiras desde o mirim até a equipe adulta com passagens pela seleção paulista e algumas seleções universitárias. Um jogador muito esforçado, mas apenas razoável.

DATABASKET: Quais são os seus ídolos no basquete?

CLÁUDIO MORTARI: No Brasil o técnico Kanela, os atletas que vi jogar Amaury e Wlamir e os que dirigi como Oscar, Marcel, Bira, Marquinhos, Carioquinha entre outros. Eu sou muito feliz em minha carreira, pois pude dirigir e dirijo a quase totalidade dos atletas de talento de nosso país. Em nível internacional, Jordan e Magic Johnson.

DATABASKET: E a sua visão sobre a NBA. Um show ou uma coisa e se espelhar?

CLÁUDIO MORTARI: Um show. Impossível de ser referência. Prefiro os jogos universitários.

DATABASKET: Qual é o seu sentimento ao ver o EC Sírio afastado da elite do basquete?

CLÁUDIO MORTARI: É de muita tristeza. O Sírio era e não sei se ainda é o clube com maior número de conquistas entre as agremiações brasileiras.Não poderia estar fora por tudo aquilo que representou. Para mim, que faço parte desta história é muito triste.

DATABASKET: Você vem mantendo contato com alguma equipe?

CLÁUDIO MORTARI: Algumas especulações e consultas. Prefiro só tocar quando as coisas são mais concretas. Meu nome sempre vem à tona em algum lugar ou alguém me passa o interesse de alguma equipe, mas isto faz parte do momento. Então eu prefiro dizer que de concreto não há nada. Continuo aguardando a chance de voltar a trabalhar naquilo que mais gosto. Algumas coisas surgiram para parte administrativa dentro da área esportiva ou chefia de uma equipe técnica de um clube, supervisionando todas as divisões, mas continuo no aguardo de uma oportunidade real de trabalho. Enquanto isto não ocorre ministro minhas aulas na UNiFMU onde sou responsável pela cadeira de basketball na Escola de Educação Física.

DATABASKET: Deixe uma mensagem aos leitores do website Databasket:

CLÁUDIO MORTARI: Deixar um abraço a todos, agradecendo sua atenção em saber um pouco mais deste profissional. Continue acreditando em nossa modalidade, pois apesar de um momento não muito positivo, tenho certeza que o futuro será extremamente bondoso conosco nos reservando grandes alegrias.

Frederico Batalha
fredericobatalha@uol.com.br

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