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BASQUETE - Editorial

A EXECUÇÃO PERDIDA

15/02/2012 14:34 h

         

A execução perdida
 
Vejo, leio, ouço e também já fiz muitas críticas ao basquete brasileiro.
 
Aliás, esta é uma constante na vida de qualquer pessoa que ama o nosso esporte.
 
Vários são os motivos de críticas, que vão do treinamento da base, passam pelos fundamentos do jogo, encontram terreno fértil na formação de treinadores, crescem de forma exponencial na preparação das nossas seleções e desembocam caudalosamente nas eleições estaduais e federal para a escolha dos seus presidentes.
 
Também não nos esqueçamos das críticas feitas pelos formadores de opiniões, que vão de blogs (oficiais ou não), sites especializados, assessores de atletas e/ou técnicos e/ou dirigentes e/ou clubes e/ou federações (ufa!)l, até encontrarem seu berço primordial na tradicional rodinha de amigos basketeros, que se reúnem por vezes até tarde da noite para tentarem nos convencer e convencerem aos outros das suas visões, colocações e posições em relação ao parágrafo anterior.
 
Em geral (mas com raras e honrosas exceções), o caos cresce em sentido inverso, ou seja, das rodinhas de amigos até o treinamento da base e nos deparamos com uma série de repetições de conceitos consagrados pelo uso, com a secular dialética da tentativa e erro ou até mesmo com a apologia da final dos tempos e da glória basketera brasileira.
 
As soluções propostas são sempre super simples e fáceis de serem tomadas e não entendemos bem porque o basquete brasileiro ainda não acabou ou já não é o melhor do mundo, pois se conseguimos resolver os nossos problemas entre uma refri e outro ou num parágrafo de um twitter, como é que chegamos a um ponto como esse?
 
Baseado nesse contexto, passo a lhes descrever a história que me contaram num grupo de estudos sobre o comportamento humano, que acontece mensalmente perto daqui onde moro.
 
Antes, devo-lhes confessar que tenho a fissura obsessiva de ver basquete em tudo o que me passa diante dos meus sentidos e que essa foi a minha maneira de jogar, aprender e ensinar o jogo.
 
Dizia-nos um participante desse grupo que ele estava almoçando com a família no domingão, quando o seu filho mais novo, vendo aquela travessa enorme, lhe pergunta:
 
- Pai, por que toda vez que tem peixe ele vem sem rabo e sem cabeça?
 
Espantado, o pai lhe responde:
 
- Verdade, filho... sei não... quem sabe sua mãe, que cozinhou o peixe, saiba.
 
- Mãe, por que a senhora, toda vez que faz peixe, corta o rabo e a cabeça dele?
 
- Sei lá, filho... acho que minha mãe, a vovó, me ensinou a fazer assim... liga prá ela e pergunta.
 
O pequeno, então, pega o celular e chama a vó.
 
- Alô? Oi vó, sou eu! Tudo bem? Olha, to aqui no almoço e mãe fez peixe, só que ele tá sem rabo e sem cabeça... você sabe me dizer o motivo? A mãe falou que foi a você que ensinou ela...
 
- Oi, filhinho! Tudo bom? O peixinho tá gostoso? Como é que mamãe fez? Com molho? Frito?
 
- Com uma coisa vermelha em cima, vó! Só que ele não tem rabo... nem cabeça! Por quê?
 
- Hummmm! Então tá deve estar muito gostoso... Olha, a vovó também não sabe muito bem, quem fazia assim era a sua bisavó, mãe do vovô... Ela tá aqui hoje, você quer que eu pergunte prá ela?
 
- Pergunta vó... pergunta prá bisa...
 
- Péra um pouquinho...
 
Pouco depois volta a vó ao telefone com a tão esperada resposta:
 
- Oi filhinho, já sei!
 
- Fala vó... por favor...
 
- A bisa tava dormindo, mas eu acordei ela... sabe como é, ela agora mais dorme do que qualquer outra coisa...
 
- Voooooó!  Por quê? Vai logo!
 
- Ah! Ela me disse que era porque no tempo dela a travessa para cozinhar o peixe era pequena... por isso tinha que cortar a cabeça e o rabo do peixe!
 
No basquete não é diferente e infelizmente nós realizamos e falamos coisas, que nem sabemos porque.
 
Sempre foi assim, sempre nos falaram que era assim, e por que agora nós temos que mudar uma coisa tão assim, que já nos foi mostrada e falada sempre assim?
 
Depois nos fica aquele vazio que não identificamos como nosso e utilizamos como escusas frases de efeito e de júbilo ao esforço feito para conseguirmos o... total fracasso.
 
Não sei se para vocês é assim, mas qualquer coisa menor do que render o máximo de nossa capacidade é para mim um redundante fracasso (não importando o resultado do jogo ou do campeonato)
 
Ou seja, reconhecemos o nosso esforço, identificamos o nosso empenho, mas o resultado ou é efêmero ou “quase chegamos lá”.
 
Conseguimos sucesso até um certo nível, mas depois a realidade se escancara e destrói nossas ilusões e esperanças.
 
Será que fizemos o máximo que podíamos?
 
Por que treinamos?
 
Como treinamos?
 
Será que deveremos procurar por outros caminhos ou aquilo que sempre vimos e que utilizamos para alcançar um sucesso insuficiente e relativo é que é o certo?
 
Será que devo vencer a qualquer custo, mesmo que o preço para isso seja esconder os defeitos e realçar as qualidades dos meus jogadores?
 
Fazer isso não os impedirá de alcançar o máximo de suas capacidades (mesmo sendo campeões)?
 
Por que devo me preocupar em ensinar fundamentos em todos os níveis se o que vale são outras coisas que sinto serem de menor importância?
 
Será que o preço para vencer no adulto seja mesmo relegar as categorias de base para um plano menor e negligenciar tanto nossos jovens talentos como seus treinadores?
 
Quando nós voltaremos a ter um Corinthians, que vencia o Real Madrid (mais todos os campeonatos paulistas, estaduais e brasileiros) e era campeão em todas, repito todas as categorias de base?
 
Quando teremos um novo Sírio, que além de vencer na base, tinha mais de 50% dos jogadores na seleção brasileira na nossa última medalha em Mundiais (78 Filipinas)?
 
O quê mudou, já que estamos fazendo as mesmas coisas que sempre fizemos, mas os resultados não são mais os mesmos?
 
Qual é o segredo das outras equipes, dos nossos países rivais, as quais éramos acostumados a “chocolatar” regularmente e que hoje  vêm aqui nos ensinar?
 
Sempre foi assim, não é?
 
Por que o mundo todo sabe as respostas, menos a gente?
 
A idéia de fazer esta clínica de basquete com o nome de “o treinamento apropriado” veio principalmente dos comentários de um blogueiro publicados após a clínica de basquete do excelente, histórico e mitológico Larry Brown, que aqui veio nos passar suas idéias.
 
Eu infelizmente não a assisti, mas pelas perguntas que o blogueiro fez naquele comentário percebi que mesmo LB não foi capaz de saciar a sede de coisas novas que os basketeros intrínseca e inconscientemente têm.
 
Ele identificava algo diferente, mas não pôde perguntar a LB o que era e ficou com aquela sensação de ter perdido o mais interessante de tudo, que é o método de ensino e as idéias revolucionárias do vencedor treinador americano.
 
A proposta da clínica do “treinamento apropriado” é responder a essas e outras questões, que os jovens treinadores e os amantes do jogo por ventura nos apresentem durante a realização da mesma.
 
Que essas pessoas tenham o espírito aberto para o novo e não vejam mais o basquete como um esporte estático, que sempre foi jogado assim: sem cabeça nem cauda, como o peixe da bisa.

Marcel de Souza
marcel@databasket.com
Administração

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