Renato Brito Cunha, além de técnico, foi também presidente da CBB. Foi o primeiro a tentar desvendar os meandros das ligações neuro-emocionais por que passam as cabeças dos jogadores de basquete a qualquer nível.
Lembro-me que ele contratou a Dra. Cristina Versari para realizar um estudo profundo sobre o perfil emocional dos jogadores da seleção brasileira de basquete.
Fizemos muitos testes, avaliações, palestras, consultas individuais e questionários para que tal perfil fosse revelado.
Como éramos? Quais seriam nossos pontos fortes? Como melhoraríamos nossas performances individuais e coletivas ao sanarmos nossas fraquezas emocionais?
Enfim, após tanto “auê”, nossa querida Dra., mostrou ao nosso então presidente Brito Cunha o nosso perfil.
Ela fazia na época o mesmo trabalho para NBA, pois era contratada, que também se preocupava com os problemas emocionais de seus jogadores.
Brito Cunha, com voz embargada, nos reuniu para mostrar que tínhamos o mesmo perfil emocional que os jogadores da NBA!
Eu já estava me sentindo um Larry Bird quando alguém lá do fundão falou bem baixinho: “Agora só falta a gente jogar igual a eles!”
Todo esse preâmbulo apenas serve para afirmar que a maneira emocional de se afrontar uma final, seja ela da NBA, da NBB, ou de qualquer final é sempre a mesma.
Temos alguns fatores preponderantes que pouco ou nada têm em comum com o nível técnico de uma final.
Vejo que, quando um time entra em campo com a determinação de “apenas” fazer o seu jogo e se lembra somente da importância técnica-tática de uma final, geralmente vence e, se perde, o motivo é que seu oponente estava mais preparado tecnicamente para o jogo.
Na minha carreira vi jogadores valorizarem emocionalmente a final e serem surpreendidos por reações de fuga ou luta, quando a calma da mente zen-ninja deveria prevalecer.
Quero dizer que já vi grandes jogadores amarelarem ou saírem do jogo por expulsão ou limite de faltas antes mesmo que a partida chegasse a seu momento decisivo simplesmente porque se deixaram levar por algo que estava somente dentro de suas cabeças e não no jogo.
Falando sobre Lakers e Orlando jogo 1, notei que os treinadores exercem um papel muito importante no sentido de mostrar o caminho aos seus jogadores.
Vi o treinador Van Gundy exortar seus atletas com um refinado “gogó”: “Essa situação tem terminar já! Nossa defesa está falhando e temos que corrigir isso agora! Vocês sabem o quê fazer!”
Refinado, mas sempre “gogó”. Só faltaram no seu discurso as palavras raça e sangue para que ele caísse na mesmice a que estamos acostumados.
Já Phil Jackson passava aos seus (em 15 segundos) a seguinte mensagem: “Esse time (Orlando) é o 25º na NBA em arremessos de campo. Por que vocês estão fazendo falta nos seus chutes? Não os façam ir para a linha (lances-livres)! Defendam, mas não façam falta nos seus (deles) arremessos!”
Os jogadores franquia também fazem grande diferença numa final.
Deu para notar, por exemplo, que LeBron não conseguiu sequer levar seu Cavaliers à final por não envolver seus companheiros no jogo principalmente quando este conta. Não dá para ganhar de ninguém hoje em dia se seu principal jogador arremessa 39 vezes e acerta apenas 17. São muitos acertos, eu sei, mas saibam também que 22 erros são muito mais determinantes para o resultado do jogo.
Principalmente quando se joga contra um pivô com Howard, capaz de trazer 20 rebotes e 40 pontos pra casa.
O jogo de Orlando é baseado na segurança defensiva de Howard, seus rebotes e seus pontos, que permitem o pega e chuta que assistimos nessa final.
Imagino se corrigissem o “follow thru” e o “release” nos lances-livres do “Superman”, quanto seria fácil para Orlando levar esse título.
Era só alguém chegar e dizer a ele “estica o braço e quebra essa munheca mais suavemente, meu filho”, que a taça seria de Orlando.
De qualquer maneira creio que Kobe está aprendendo muitas lições nessa temporada e LeBron o ajudou muito, pois Kobe percebeu que não dá para transformar um esporte essencialmente coletivo em várias seqüências de ações individuais.
Aliás, LeBron e Kobe já deveriam ter aprendido com o exemplo de MJ, que só se tornou um vencedor depois de sete temporadas de tentativas insanas de transformar o coletivo em vitrine do indivíduo.
Phil Jackson encontra maiores dificuldades em explicar a essência do sistema de triângulos à Kobe do que encontrou com MJ, pois se MJ estava sedento por um título na NBA, o mesmo não acontece com Kobe, que já ganhou três graças principalmente à Shaq.
Se Kobe era muito novo para entender a mensagem deixada por MJ, a insistência de Phil Jackson e
o naufrágio técnico de LeBron parecem que estão fazendo efeito nos meandros neuro-emocionais por que passa a cabeça de Kobe.
O jogo de hoje, mostrou que Orlando entrou mais preparada para as armadilhas defensivas de Phil Jackson.
Os Lakers optaram por dobrar a marcação sobre Howard, o que deixou grandes aberturas defensivas para os arremessos de Lewis e Turkoglu, que fizeram a festa principalmente porque esta dobra vinha sempre do ala mais próximo à Howard.
Tal manobra provoca um grande comprometimento da defesa e, com a rotação de bola (o popular vira-vira), Orlando sempre encontrou um arremessador livre de marcação.
Los Angeles tentou compensar a defesa mais aberta com uma maior movimentação ofensiva e conseqüente aumento do número de arremessos, ou seja, embora estivesse jogando em casa, o Lakers fez o jogo dos Magic.
No final, depois de uma prorrogação, venceu os Lakers, simplesmente porque Kobe procurou envolver seus companheiros e descarregar para o jogador mais livre nos momentos em que a pressão defensiva sobre ele era intensa.
O mais importante disso é que ele, mesmo assim, foi decisivo e o melhor de seu time.
O basquete é assim: se você respeitar as leis do jogo, elas o recompensarão. Kobe finalmente aprendeu a lição. Phil Jackson irá dormir tranqüilo.