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BASQUETE - Editorial

JOÃO SEBASTIÃO BAH, TCHÊ!

04/05/2009 15:45 h

         

 Todos sabemos ser os donos do nosso próprio destino. Talvez nem todos saibam, entretanto, que o destino dos outros de alguma forma seja o nosso também.

Vivemos na correria, na pressa de alcançar objetivos às vezes tão distantes quanto a lua. Olhamos para ela, sonhamos com nossas futuras conquistas e nos esquecemos de nós mesmos.

O mundo é um pouco mais intrincado do que traçar um objetivo e batalharmos noite e dia para alcançá-lo. Existem outras variáveis que aparentemente não dependem de nós.
 
Estas nos atingem das maneiras mais insidiosas e ao mesmo tempo inesperadas. As vemos ao longe, mas não cremos que nos possam influenciar.
De qualquer maneira, também podemos intervir no destino dos outros, mas muitos sequer imaginam que seus atos, com viés individual, acarretem em mudanças inesperadas na vida de pessoas que jamais encontraremos.
Escrevo isso porque dia desses eu estava “adiantado”, cheguei mais cedo à aula de sax e o professor Fiorim, grande figura, mistura de mestre, aluno, amigo e conselheiro me colocou no estúdio ao lado para que eu iniciasse o aquecimento do instrumento.
Pois é, abro um parêntesis para vos explicar que músico também tem que se aquecer, não é só chegar lá e ir tocando assim.
No caso de instrumento de sopro como o saxofone, o aquecimento se faz de duas maneiras: Fazer passar o ar pelo instrumento musical, sem que se emita som algum e tocar “notas longas”.
Tocar notas longas nada mais é do que soar por cinco, dez segundos, cada nota da escala musical. É uma delícia, principalmente para os vizinhos.
Muito bem, o estúdio tem o tratamento acústico ideal para a prática da música. É equipado com vários instrumentos musicais, que o Fiorim mantém ali para as suas sessões de jazz: bateria, violão, uma guitarra muito velha (relíquia da escola), teclados, enfim, creio que já tenha dado para entender o clima do lugar.
Eu comecei minha série de notas longas, quando de repente, ao soar uma das notas o prato da bateria começou a vibrar junto com ela.
Levei um susto, é claro, porque não havia ninguém além de mim lá dentro e todas as vezes que o Si bemol era por mim emitido o prato vibrava em uníssono, como se alguém o tivesse tocado.
Continuei e ao chegar ao Fa, uma corda da velha guitarra também vibrou junto. Aí percebi que, de alguma maneira, a minha emissão de som influenciava os demais instrumentos e relaxei.
Comecei até a fazer um sonzinho legal, pois parecia que havia “companheiros que estavam alí”.
Quando a minha aula realmente começou, perguntei ao professor qual o motivo daquele fenômeno e ele me explicou que era a chamada ressonância, ou seja, ao emitir no meu sax a nota Fa, a corda Fa da guitarra começava a vibrar e a emitir o mesmo som, pois como sabemos a onda sonora também tem um componente físico, que entra “em ressonância” com os componentes físicos de mesmo comprimento de onda.
E é aí que a aula de sax do Fiorim é sensacional, porque me é possível associar coisas da música com medicina, esporte, vida...
Às vezes ficamos discutindo um tempão sobre aspectos da música que entram em ressonância com outros aspectos de nossas vidas.
Quando ele falou sobre ressonância, eu já pensei no exame de ressonância magnética, que nada mais é do que colocar o paciente dentro de um grande imã eletromagnético, cujo campo criado sincroniza todos os átomos do seu corpo fazendo com que eles entrem em ressonância, ou seja, vibrem com a mesma orientação.
A máquina então emite uma onda de rádio e tais átomos perdem a ressonância por milésimos de segundo, as recuperando em seguida em tempos diferentes. Essa diferença no tempo de recuperação de cada átomo (hidrogênio da água, cálcio dos ossos, carbono...) pode ser medida por um sensor, que então, baseado nessa diferença temporal, traduz os diversos tempos de recuperação em imagens.
Fácil, não é? O Fiorim entendeu. Acho que a música lhe ajudou.
Ele também me falou que quem mais alcançou, com sua arte, essa ressonância foi Johann Sebastian Bach, que revolucionou a música ao demonstrar, com seu “cravo bem temperado”, que qualquer peça musical poderia ser tocada nos doze tons que conhecemos.
É claro, que não dá para falar muito sobre JSB, mas se ouvirem os Concertos de Brandemburgo, especialmente o de número três, em sol maior, primeiro movimento, Allegro, vocês, mais do que entender, sentirão na pele o que é ressonância.
Talvez, então compreendam, que basquete não é jogado apenas dentro das quadras, que ser técnico de basquete não é só gogó, dura nos minhocas e prensinha nos juízes, e que ser juiz não é só apitar para aparecer na televisão fazendo sinaizinhos ou descarregar sua raiva pessoal em alguém que também está ali no mesmo barco que você.
Ouvindo a música de JSB, talvez nossos dirigentes entendam finalmente que seus atos influenciam um esporte inteiro, que uma destemida “canetada” feita da sua confortável poltrona, com ar condicionado na sala e muitas vezes tendo apenas motivos meramente pessoais ou de orgulho ferido para fazê-lo influencia o pequeno atleta nos rincões mais longínquos impedindo-o de alcançar seu sonho de “só” jogar basquete para se divertir.
O basquete brasileiro precisa de uma mudança de atitudes.
Atitudes que entendam a falta de resultados de uma seleção adulta como a maior influência na vida de milhares de jovens e profissionais que dão base ao aparecimento de novos jogadores de alto nível, ídolos que nos faltam para manter o ciclo funcionando.
Nesses últimos anos vimos o basquete se diluir na mesmice do “perdemos por detalhes” e do “estamos no caminho certo”.
Fazer as mesmas coisas que fizemos nos últimos anos, nos trará sempre os mesmos resultados os quais todos já conhecemos.
Realizar clínicas e projetos só agora, são esforços pequenos e tardios, que deveriam ser feitos desde o início de qualquer gestão.
Na história do Databasket, temos recebido, com uma freqüência cada vez maior, currículos de profissionais em busca de uma colocação e e-mails de jovens que querem apenas uma oportunidade para realizar seus sonhos.
Ora, oportunidade foi a única coisa que os nossos ídolos recebemos no início de suas carreiras.
O resto conseguimos por esforço próprio, pois tínhamos onde treinar e jogar.
Quantos talentos ainda perderemos por não termos condições de treinar todos os que desejam?
Quantos profissionais manteremos fora do mercado de trabalho por não haver condições dignas de contratá-los?
Quantos talentos terão como objetivo a Europa ou a NBA o invés de desenvolverem suas identidades como jogador e pessoa aqui no Brasil?
Tirar um jogador(a) com potencial de suas referências culturais e familiares e mandá-los ainda imberbes e menárquicas para um lugar desconhecido, com modo de vida completamente diferente do nosso, sem referência familiar, sem obrigação de estudo é deixá-los cometer um suicídio social desse.
Quando o basquete acabar (se chegar a começar) o que será dele e de sua família?
E por que isso acontece?
Talvez seja porque esse jovem não veja perspectiva de desenvolvimento do seu talento por aqui, mas sua saída do basquete brasileiro exerce influência em outros jovens da sua idade que ficam sem condições de se desenvolverem, tanto por falta de exemplo, como por absoluta falta de equipes para isso.
Por que não há política que garanta a educação formal dos nossos atletas?
Será que todos os que estão jogando hoje viverão do basquete e conseguirão fazê-lo quando terminarem suas carreiras?
Como pretender criar talentos se estes têm seus ídolos com a camisa dos diversos Phoenix, Denver, Cleveland, Bologna, Tau e desejem o mesmo destino o mais rápido possível?
Será que todos chegarão lá?
Será que tudo isso tem relação com a quadra?
Sabemos que sim. Os resultados dizem que sim há mais de dez anos!
É hora de mudar e se você basketero, que está lá no norte ou no sul do país não entender assim, então mereceremos o destino dos outros e seremos obrigados a aceitá-lo goela abaixo como um veneno amargo que nos seca internamente muito devagar, bem devagarzinho.
Mas se você é um “basketero bão”, saberá “que nóis já não agüenta mais” e que a esperança é uma mudança.
Muda o nosso destino!
Oigalê!


 

Marcel de Souza
marcel@databasket.com
Administração

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