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BASQUETE - Editorial

BASQUETE PROZAC

01/10/2008 22:49 h

         

Uma das razões porque dominamos, como espécie animal, o mundo é que conseguimos registrar e passar adiante, aos nossos descendentes, a nossa história.
 
Digo a história do mundo, da humanidade, do ser humano que dominou o fogo, a eletricidade, e criou máquinas que nos trouxeram até aqui.
 
Posso me lembrar da voz de meu professor de história no ginásio a me contar sobre a idade da pedra lascada, um dos grandes passos que os hominídeos deram.
 
Ele também me ensinou sobre a descoberta da função do dedo opositor, que nos permitiu a fabricação de armas e proteção contra as dificuldades do mundo primitivo.
 
Tudo isso foi registrado em cavernas, pedras, papiros, papéis, livros, memória digital e nos foi passado de geração após geração de uma maneira talvez inconsciente, mas seguramente diferente da simples tentativa e erro dos demais seres que convivem conosco.
 
À medida que conseguíamos afirmar a dominância da nossa espécie passamos a nos agrupar e foi necessária a criação de códigos e normas que orientassem os procedimentos básicos do viver em grupo.
 
Por mais incrível que possa parecer a Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”, que se alguém matasse alguém teria o mesmo tipo de morte como punição, foi um dos maiores progressos da humanidade, pois antes dela, um assassinato era punido com a morte do assassino e mais sete familiares dele, além da perda de todas as suas propriedades e o serviço escravo de mais uns tantos, por exemplo.
 
Também é incrível que o ser humano, apesar de dominar a terra, seja ainda capaz de nutrir sentimentos animalescos no convívio cotidiano.
 
A briga pelo poder, a adulação, o servilismo (de quem serve e de quem é servido), são partes presentes e essenciais de todo relacionamento humano desde os primórdios da civilização até os dias de hoje.
 
Embora, a história nos mostre exemplos riquíssimos de caráter, despojo às riquezas mundanas, desinteresse pessoal, teimamos em viver uma vida voltada apenas a nós e aos nossos.
 
O mundo parece dividido em homens de liberdade e homens de amor.
 
Os homens de liberdade prezam o bem comum, a sociedade como um todo, a honestidade no trato das coisas que são de todos, a renúncia do pessoal em benefício de um bem maior, que irá trazer mais riqueza (pessoal e material) a todos. São despojados de orgulho individual, mas não abrem mão das conquistas do ser humano como povo.
 
A liberdade de escolha, o direito de divergir, de expressar nossos sentimentos são características fundamentais de quem é livre.
 
Já os homens de amor se interessam apenas pelo o que é seu, se eles e os seus estão bem, se podem ficar melhores, prezam apenas o seu núcleo e ignoram regras da sociedade para obterem benefício para si, ignoram esforços de uma vida melhor a todos se podem tê-la apenas para os seus.
 
O amor pelo que é seu, as conquistas individuais, o direito de ter, é um sacrossanto dever dos homens de amor, mesmo que para isso eles tenham que desrespeitar as regras da sociedade.
 
Temos um pouco dessas duas características dentro de nós: Se por um lado queremos uma vida, um país, um esporte melhor para todos, por outro também desejamos um pequena vantagem, um emprego para um parente, um dúzia de bolas, um favorzinho, um jeitinho, um jantarzinho “na faixa”, uma viagenzinha até ali.
 
A história nos mostra que a sociedade, seja ela qual for, deve se auto-regular e se auto-proteger.
O poder que emana de um cargo executivo e/ou representativo não pode ser exercido como uma pessoa de amor (eu, os meus e Mateus), mas sim como um líder da liberdade e do sentido irretratável do bem comum.
 
As associações cuja finalidade seja apenas proteger e acariciar o ego de seu líder e/ou seu clã, sempre foram chamadas de totalitárias ou absolutistas cujo destino lhes foi mais de uma vez cruel.
 
Estas são fechadas em si mesmas, prestam atenção apenas ao seu próprio umbigo (ou a quem lhes diz que ele é bonitinho) e explodem sua ira na primeira divergência de opinião, pois o poder jamais deverá ser contestado, mesmo que para isso o líder seja obrigado a distribuir pequenos favores a sua claque para calar os insatisfeitos com o sucesso alheio em agradá-lo.
 
Os totalitários e absolutistas, porém, não resistem ao efeito dos resultados de suas manobras de poder sobre aqueles a quem exploram principalmente quando se esquecem dos que realmente trabalham diretamente para sustentá-los e mais cedo ou mais tarde caem feito moscas num prato de sopa quente.
 
A liberdade do estado, do povo e suas manifestações devem ser dirigidas por um líder de liberdade, que trate todos os assuntos visando apenas o bem comum e não o comum.
 
O líder de uma associação de humanos deve pensar nos humanos e não nele (embora humano também ele o seja), caso contrário se igualaria a um animal irracional, que faz acordos apenas para vantagem de seu domínio individual.
 
Os que escolhem seus líderes devem pensar não só em si, mas naqueles que não têm direito a escolhê-los, embora sofram diretamente os resultados de sua atuação.
 
Quanto menor é o colégio eleitoral, maior é a responsabilidade deste para com os que, por canetada revolucionária do passado, ficaram de fora do processo.
 
Um colégio eleitoral pequeno é passível de se tornar manipulável, pois a tendência é que dele participe apenas homens de amor e não de liberdade.
 
Na verdade são pessoas que não se importam com sua representatividade, pois geralmente não se submetem a elas.
 
Seus eleitores são poucos, controláveis por acordos e desinteressados se o seu representante irá mudar a cara do país, do povo ou do esporte.
 
Eles também querem migalhas dos favores obtidos por seus representantes no colégio eleitoral, que elegerá o líder de todos.
 
Esquecem-se que deste todo (que não tem o direito de votar) depende a continuidade do progresso e dos resultados obtidos na gestão do líder.
 
Um colégio eleitoral, seja ele qual for, deve se lembrar que a presença de seus participantes neste colégio depende daqueles que, embora não votem, mantém funcionando todo o processo e são os mais sensíveis aos fracassos que uma gestão equivocada provoca ao longo dos tempos.
 
Ao deixar de promover a produção de resultados de grande nível, o líder e seu colégio afastam-se de seu povo e o deixa sem condições de subsistência para fazer aquilo que mais ama, que é praticar sua civilidade, seu trabalho, seu esporte.
 
Sem onde expressar seu valor, a grande massa de pessoas não consegue sequer encontrar um emprego, um clube, um time onde trabalhar e abandona seu líder e seu esporte.
 
Não são poucas as pessoas que nos escrevem diariamente procurando um time, um emprego, um patrocínio para que possam expressar suas idéias e seu trabalho, que querem jogar, mas não encontram um lugar para tal.
 
Não são poucas as pessoas que deixaram o nosso esporte, pois foram forçadas a tomar outra direção onde passam a ser apenas mais um quando poderiam ser brilhantes no basquete.
 
Não são poucos os futuros talentos que têm como ídolos Kobe, Le Bron e Carmelo, pois lhes faltam exemplos por aqui.
 
Também não são poucos aqueles que passam direto das categorias menores para terras de outra cultura, outro idioma, outra forma de ver o jogo, na esperança de se tornarem futuros Kobes, Lebrons e Carmelos.
 
Isto é o pior que pode acontecer a um esporte sem resultados: Pré-adolescentes tirados de suas referências familiares (pais) para irem tentar a sorte em um lugar distante só porque alguém lhe ofereceu a esperança incerta de se tornarem alguém no esporte.
 
Temos vários desses exemplos que, aos treze ou quatorze anos de idade deixam suas casas e passam a cuidar de si como tivessem competência para estudar, jogar e crescerem como adultos saudáveis.
 
Eleger um líder significa eleger uma política esportiva que nos traga resultados constantes, para que o nosso esporte tenha o mesmo reconhecimento que recebe em outros países.
 
Eleger um líder significa escolher uma política esportiva que permita a descoberta e o treinamento dos nossos talentos, sem que esses tenham que sair do país para tentarem ser alguém no esporte.
 
Eleger um líder significa adotar valores de honestidade e lealdade para com seus liderados.
 
Essa política esportiva não pode depender de favores a pessoas, mas sim de compromissos com aqueles que não votam, mas são os primeiros a perderem suas posições quando os resultados obtidos pela gestão política do esporte mostram não serem ideais.
 
Esses compromissos têm que ser assumidos com o esporte e não com as pessoas que elegem o líder da gestão.
 
Essas pessoas deveriam saber que, mais do que a falta de bola, a falta de sede, a falta de filiados ou a falta de recursos; a falta de resultados como esporte inserido no contexto mundial é o que reprova totalmente a gestão do líder.
 
Essas pessoas deveriam entender que o nosso basquete forte no mundo traz notoriedade, divulgação e facilidade em manter nossas estruturas esportivas funcionando, e estes resultados no final irão nos proporcionar, bolas, sedes, filiados e recursos.
 
De outra maneira, esses recursos passam a ter o significado de esmolas, migalhas de um bolo a ser dividido apenas por quem tem a mesma orientação do líder.
 
Desde a criação da nossa entidade mãe, esta é a maior crise por que passa o basquete brasileiro.
 
É inútil planejar o futuro.
 
Nada fará mudar o passado.
 
Vivemos um momento em que a casa caiu e insistimos em não admitir nossa grande crise.
 
Alguma coisa tem que ser feita agora, mas parece que estamos sob efeito do Prozac.
 
Tá tudo bem! Não aconteceu nada! Bola prá frente!
 
Sei lá...
 
Eu apenas choro...


Marcel de Souza
marcel@databasket.com
Administração

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