A última coisa que desejo é que este editorial seja tomado por "um palanque eleitoreiro", já que discutiremos aspectos fundamentais de meu credo sobre o basquete brasileiro.
Isto posto, há dez anos venho afirmando que o grande problema do nosso basquete está dentro da quadra, pois hoje todos hão de convir comigo que os resultados esperados não foram alcançados.
Será que tem gente satisfeita com o que conquistamos nos de 1997 para cá?
Se existir é por que deve ser de um outro país, ou não gosta do basquete brasileiro. A possibilidade de se estar dissociado da realidade também deve ser considerada.
A questão estrutural se não é melhor é igual à de sempre. Já tivemos presidentes que hipotecaram casas e vaquinhas para que a seleção pudesse vencer na quadra.
Hoje é a mesma coisa. A seleção brasileira tem todas as condições de treinamento a sua disposição.
A questão estrutura nunca poderá ser colocada como fator de resultados, senão diríamos também que os EUA não tiveram estrutura nas últimas competições ou que a Itália está totalmente sem estrutura, porque não se classificou para as Olimpíadas.
Poderíamos sim discutir a estrutura que faz nossos treinadores e jogadores apelarem para outras táticas que não as do jogo em si e conseguirem os resultados vencedores por aqui.
Não quero tirar o mérito de ninguém, pois vence sempre que tem os melhores jogadores.
Só que por aqui o fator que eu chamo de "gogó" tem um peso imenso e é explorado até com a utilização de estatísticas e imagens para tentar demonstrar o ponto de vista de um e de outro.
Uma ?prensinha? em um árbitro aqui, uma conversa ao pé de ouvido alí, conseguem modificar a história de um campeonato e conseqüentemente do basquete brasileiro.
Como o resultado técnico nem sempre é o que reflete a superioridade técnica, temos tido distorções quanto à percepção de nosso real valor.
Quando estamos em grandes competições internacionais estas manobras, utilizadas como arma tática brasileirinha, não têm valor técnico e não são consideradas pelas arbitragens.
O que vale mesmo é o que treinamos e nisso eu insisto, há dez anos como disse, não o fazemos de maneira apropriada.
Cito também Ary Vidal, de mesmo valor que Kanela, que não venceu no Brasil antes do Pan de 87 e Miguel Ângelo da Luz, que foi campeão mundial e vice-olímpico sem ter título tupiniquim algum, como provas vivas que vencer no Brasil não significa necessariamente ser o melhor preparado para dirigir a nossa seleção.
Não concordo e nunca concordarei com a escolha de um treinador estrangeiro que "caia de pára-quedas" e venha dirigir a nossa seleção.
É preciso conhecer os jogadores, o país, a cultura, como nós fomos criados para o jogo.
É um desprestígio à classe dos treinadores de um país campeão mundial masculino e feminino de basquete, que tem técnico e jogadores no Hall da Fama, país esse ranqueado entre os primeiros no basquete mundial.
Fosse o basquete um esporte sem tradição mundial, um treinador mais experiente e antenado com o que há de melhor seria tolerável, mas não é o nosso caso.
Não creio que seja vaidade querer um treinador brasileiro e sim orgulho do nosso basquete.
Nada tenho contra um treinador que venha aqui, fique aqui e aprenda a nossa maneira de ser como fizeram os treinadores estrangeiros que estão dirigindo outros países.
Quanto ao fato pessoal de ser ou não ser treinador da seleção, é claro que eu sempre tive esse sonho principalmente quando um dos nossos treinadores declarou que não daria para classificar o Brasil, que era muito difícil a classificação...
Aliás, se houver um só treinador brasileiro que não compartilhe o meu desejo de ser treinador da seleção, por favor, que entregue sua carteirinha ao CREFI e mude de profissão.
Eu sonho em um dia dirigir a seleção porque acredito que a minha visão do jogo é adaptada a esse nível de jogador.
Sonho em levar o basquete brasileiro novamente ao nível técnico que lhe é seu.
Mesmo assim, renuncio temporariamente a esse sonho, pois a atual gestão da CBB nada tem em comum com as minhas idéias e discutir basquete com essas pessoas e lhes mostrar o quanto o basquete brasileiro é capaz se nos entendermos como somos é algo totalmente impensável para mim.
Seria uma ofensa muito grande às minhas crenças se compactuasse com a maneira pequena e obtusa que nossos principais dirigentes vêem o basquete brasileiro.
Servir ao pequeno nos torna como tal.
Não! Com muita honra lhes digo não.
Não ter o sonho de ser o treinador da nossa seleção nesta gestão, insisto, é uma das minhas maiores conquistas no basquete brasileiro.
De qualquer maneira, sofro quando justificam nossos insucessos com o famoso jargão "estamos no caminho certo, perdemos por detalhes" para depois começarem a falar que precisamos pegar mais rebotes, melhorar nosso percentual de arremessos, aprimorar nossos lances-livres, realizar mais contra-ataques, roubar mais bolas, perder menos bolas...
Sei que nossos jogadores se sentem ofendidos e humilhados com tais justificativas, pois elas os atingem diretamente.
Afinal de contas, quem realiza todas essas ações que nos faltaram são os jogadores e, portanto, onde estaria a culpa da falta de detalhes? É lógico que a responsabilidade indiretamente cai sobre os jogadores.
Essa é a lógica desses meninos (ainda o são) e eles sabem que a responsabilidade não é deles.
Nossos jogadores são hoje treinados e competem nos melhores campeonatos do mundo.
Quando aqui chegam para atender à nossa seleção encontram o treinamento que faziam quando ainda jogavam no Brasil (muitos ainda juvenis) e logo percebem que alguma coisa não irá funcionar, pois todos os seus adversários continuarão a treinar no mesmo ritmo que eles acabaram de deixar por lá.
Tenho também dito, pelos mesmos dez anos, que se tivermos dois jogadores de nível técnico semelhante, levará vantagem sobre o outro aquele que melhor estiver treinado.
Foi isso que eles sentiram na pele nesses últimos dez anos e depois a gente estranha as atitudes de alguns deles, que não se apresentam no dia certo, reclamam nos jornais, brigam entre si, não querem mais jogar, não entram em campo quando chamados...
Todas reações ao que já sofreram nesse processo: A falta de preparo apropriado, as promessas não cumpridas, as diferenças de tratamento, a tolerância discriminada ao erro individual...
Meu credo é que temos um dos melhores basquete do mundo, na vanguarda mundial, em alguns aspectos.
Este basquete, porém, está sendo tratado como uma possante Ferrari que trafega em quarta marcha a 220 km por hora, quando poderia estar em sexta marcha a mais de 350.
Identificamos nosso potencial, mas não sabemos explorá-lo.
Achamos que estamos no caminho certo e só perdemos nos detalhes...
Nos é necessário um piloto capacitado para dirigir esta Ferrari, concordo.
Mas um brasileiro, pois as regras de trânsito, no nosso basquete, são um pouco diferentes.